Samira Volpi: melhor fase depois dos 40

As dicas da triatleta que se divide entre trabalho, família e treino para conseguir marcas excelentes no esporte

 

Por Mario Mele

 

Foi um caminho sem volta. Em 2014, a empresária Samira Volpi resolveu experimentar o esporte em busca de um estilo de vida mais saudável. “Eu estava sedentária havia uns anos, então comecei a me envolver com a corrida, mas mais por diversão, participando de provas de 5 km e 10 km”, conta. A brincadeira ficou séria. Samira, que naquela época morava no Chile, evoluiu para as meias-maratonas e, em seguida, às maratonas. 

Ela não conseguia mais se ver sem a corrida. Completou as Maratonas de Santiago, de Nova York e, em 2018, a de Buenos Aires, onde obteve a melhor marca pessoal nos 42 km até hoje: 3h30min57. “Adoro longas distâncias, mas também sei que a corrida é um dos esportes que mais lesionam”, reconhece, hoje aos 43 anos.

 

De volta ao Brasil, começou a sentir fortes dores no pescoço e no ombro. O diagnóstico preocupou: hérnia de disco na região cervical. Os médicos recomendaram que ela desse um tempo na corrida, que só estava agravando o problema.

 

Até que em um Dia das Mães, Samira — que é mãe de uma menina de 8 anos e de um menino de 10 (ambos costumam estar nas provas torcendo por ela) — ganhou uma bicicleta de presente do marido. Com uma amiga que já fazia triathlon, redescobriu o esporte. Começou a pedalar e a nadar. No fim de 2018, já curada da lesão na cervical, fez seu primeiro triathlon, modalidade à qual se dedica até hoje.

Para Samira, que teve que aprender a nadar praticamente do zero, “nadar, pedalar e correr” é sinônimo de superação e adaptação. “Eu só não me afogava na piscina, mas não tinha técnica nenhuma de natação”, lembra. 

 

Ingressou em uma assessoria esportiva, seguiu planilhas de treinos, dietas e, em pouco tempo, os resultados apareceram. Em 2019, venceu a etapa de Riacho Grande do Triday Series na distância Sprint. No começo deste ano, foi campeã do Triathlon Internacional de Santos na distância Olímpica. Ambas as vitórias na categoria 40-44 anos.

 

Aí veio a pandemia, a quarentena, a mudança de residência, o “novo normal”. Samira foi conciliando tarefas e se encaixando à nova realidade. “Eficiência é a chave”, diz com segurança. A seguir, ela conta em detalhes como consegue conciliar treinamento com compromissos profissionais e familiares e ainda evoluir. 

 

Treinos indoor

 

Eu tinha acabado de me mudar quando entramos na quarentena. Para o novo apartamento, pensei em uma área onde pudesse colocar o rolo com a minha bicicleta e uma televisão. Na pandemia, essa vontade aumentou. Montei uma academia dentro de casa. Hoje, eu consigo ter a tranquilidade para treinar e, ao mesmo tempo, dar atenção aos meus filhos, por exemplo, que estão em homeschooling. Foi dessa forma que eu consegui melhorar o meu pedal e a minha corrida durante a pandemia. 

 

Aprendizado da quarentena

 

O ser humano é mesmo adaptável em qualquer situação. Esse foi o meu maior aprendizado. Sempre há um jeito de nos motivarmos, mesmo se o objetivo é a performance ou o desenvolvimento pessoal em alguma modalidade. Aprendi a ter paciência. Cada coisa na sua hora, no seu lugar… O mundo inteiro estava na mesma situação, então não adiantava eu ficar ansiosa. 

 

Desafios virtuais, uma motivação

 

Participei de diversos desafios virtuais durante a pandemia. Foi importante para eu me manter motivada. Inclusive, durante a pandemia, teve um mês em que foi o que eu mais corri nos últimos anos. Depois, dediquei um mês inteiro ao pedal, tudo indoor. Foi a primeira vez em que eu participei de uma competição virtual. Achei incrível. Dá, sim, para você trazer a sensação de competitividade dessa forma, é possível chegar ao seu limite, e eu ainda me diverti bastante. Independentemente de você ter uma prova em vista, coisas assim te mantém saudável, fazem você querer se desafiar.

 

Evolução constante

A melhora no rendimento com o passar do tempo é uma questão muito sutil. Com a idade, é lógico, demoramos mais tempo para recuperar de uma prova, etc. Mas eu posso dizer que hoje, aos 43 anos, estou realmente na minha melhor fase. Evoluí bastante na natação, no pedal e me mantenho forte na corrida. É uma questão de maturidade: passamos a entender melhor o nosso corpo, a respeitar o descanso, as horas de sono. O segredo é mirar a longevidade. Meu objetivo é continuar treinando por muitos e muitos anos.

 

Morar e treinar em São Paulo

 

Para morar numa cidade grande como São Paulo e querer ser triatleta, você precisa de locais seguros para treinar. E quem é triatleta sabe que, em São Paulo, há poucos locais, principalmente para pedalar. As estradas são perigosas e, infelizmente, as pessoas ainda não respeitam muito o seu espaço. Sinto uma certa insegurança. Temos três lugares, basicamente, para pedalar: a Estrada dos Romeiros, a Ciclovia da Marginal Pinheiros e a região do Riacho Grande. E estamos constantemente buscando novos locais para simular provas e não ficar só no indoor. Mas não adianta você tentar fazer o seu treino de qualquer jeito e correr o risco de se machucar. Se quiser pedalar na ciclovia, tem que entender que há pessoas que estão lá para passear. Para eu não perder tempo, durante a semana tento pedalar no rolo e correr na esteira. E, nos finais de semana, faço treinos mais longos, pois sei que não é preciso tanta pressa, diminuindo assim o risco de eu me machucar.

 

Eficiência é a chave

 

Muitas pessoas que são casadas e têm filhos querem treinar e ter uma alimentação saudável, mas sem abdicar da vida social. Por isso, eu digo que equilíbrio e organização são o segredo. Eu tenho a minha agenda bem organizada para conseguir treinar de manhã, ajudar as crianças na escola, fazer outras atividades e ainda conseguir trabalhar na parte da tarde. Isso facilita e me dá uma certa tranquilidade: sei que vou conseguir fazer tudo. Portanto, seja eficiente: se você tem duas horas para treinar, por exemplo, faça isso da melhor forma possível. E aí, quando estiver entre amigos, curtindo, esteja presente e sem preocupações. É importante levar a vida com leveza. Entenda que você é uma atleta, mas que não vive disso e que, portanto, treinar tem que ser um prazer. Sou dedicada em todas as áreas da minha vida. E, se eu pudesse deixar uma mensagem, é sobre se ter equilíbrio, não achar que está perdendo nada. Você só perde se não estiver buscando a leveza e o equilíbrio na vida.